Entrevistas

Luciana Paludo

Redação DanceCast
Escrito por Redação DanceCast em 22 de março de 2011
Luciana Paludo
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Quem é Luciana Paludo?
Olhando o “espelho da memória”, posso dizer que sou uma pessoa que nunca mediu esforços para construir “um ser pleno” – que é o modo com o qual tenho buscado viver e forjar minha existência. Não construí, estou em busca, a cada dia, de formação, informação, trocas de experiências – como costumo dizer: “refinando o ser”. E isso tudo se deu, principalmente, através da dança. Posso dizer que foi a dança que me impeliu a buscar tanto, para me superar.

Onde encontrar os trabalhos de Luciana Paludo? Onde você dá aulas e em que companhias dança atualmente?
Atualmente dou aulas no espaço acadêmico, trabalhando nos Cursos de Licenciatura em Dança de meu Estado (RS), desde 2000. Inicialmente em Cruz Alta (até 2008); de 2009 a fevereiro de 2011 na ULBRA e, agora em fevereiro, assumi na UFRGS – de concurso que havia feito em julho de 2010. Assim, os cursos livres se resumem a alguns eventos, não há tempo para manter um curso independente, ultimamente, pois tenho que fazer a minha manutenção como bailarina – e isso quer dizer aulas, processo de criação e pesquisa de movimentos. Ano passado (2010) trabalhei para a Cia Municipal de Dança de Caxias do Sul; uma experiência maravilhosa; em 2008 e 2009 trabalhei para o Grupo experimental de dança de Porto Alegre. Nas duas ocasiões dei aulas e coreografei.
Danço na “minha companhia”, literalmente. O “Mimese Cia de dança-coisa”, o qual se iniciou em Cruz Alta (2002); éramos entre 7 ou 8 integrantes – mais os “agregados” que convidávamos em alguns espetáculos… Quando me mudei para Porto Alegre, em 2006, ganhamos o Klauss Vianna (para circulação Estadual – o projeto proposto); aí, conseguimos manter o grupo que, dependendo a ocasião, agregou até 12 pessoas!
A partir de 2007, quando fiz um projeto para Caravana Funarte de Circulação Nacional, para minhas coreografias solo, o Mimese mudou de formato: convido artistas e esses trabalham em colaboração, por temporadas. Hoje, início de 2011, o Mimese está funcionando assim, mas, nada impede que o formato se modifique; a vida é versátil. Tem que ser.

Como foi o início de sua carreira? E que dicas você daria a si própria no início da carreira?
Conto por início de minha carreira o momento em que me formei no Curso de Dança, em Curitiba, 1990. Na minha cabeça eu precisava, a partir de então, trabalhar! E trabalho é trabalho. Explico: quando um médico se forma, ele não escolhe o paciente que irá atender; quando um advogado abre uma banca, recém formado, trabalha com o que aparecer. Na dança, pelo menos no meu raciocínio, sempre funcionei nessa lógica. Sou filha de pais professores, trabalhadores incansáveis; trabalho em todas as frentes na dança. E, na minha sensação/percepção/entendimento, estou sempre dançando. Seja no palco, numa sala de aula, na universidade, quando escrevo sobre dança. Não vejo separação nas funções que aprendi fazer.
A dica que eu dou: se especializem, estudem, façam muita aula, leiam, estudem história da dança – para compreender o que fazemos no presente! Tem que ir fundo, quando se escolhe uma profissão. Esta história “sou bailarino” (naquele pedestal), acho complicado; ou “sou pesquisador” (e ficar, também num pedestal, desdenhando a prática… ora, que é isso?!). Hoje o mercado da dança está precisando do profissional que saiba ser bailarino; que saiba cuidar de sua preparação, que saiba coreografar, dar aula; que tenha um conhecimento diversificado de arte e de sociedade… E, para isso, temos que nos dedicar e estarmos atentos ao que a realidade nos requer e apresenta.

Qual seu contato com outros estilos de dança ou manifestação artística?
Minha formação é com o ballet clássico e a dança moderna; além da faculdade de dança, cursei o Curso de Danças Clássicas da Fundação Teatro Guaíra (entre 1987 e 1991). Na faculdade tínhamos composição coreográfica, interpretação teatral, improvisação; essa formação fez com que eu transitasse naturalmente entre gêneros distintos de dança e de arte. Mais tarde ao lecionar na Universidade, onde temos pessoas de “várias danças” que buscam o Curso de Dança, iniciei o meu esforço para compreender e lidar com a diversidade (isso é trabalhoso; não sejamos ingênuos!). Exercitar a diversidade significa “olhar e ver o outro” – aprender a cada dia a valorizar o que cada um tem de precioso, em termos de técnica e construção estética. Também faz pensar na poética, no processo criativo de cada gênero.
É muito interessante ver pessoas de distintos gêneros de dança em uma mesma aula de composição coreográfica. Então, lanço uma tarefa para eles e cada um resolve em acordo ao seu histórico corporal na dança. A partir disso, podemos “provocar”, propor quebras, para que não haja acomodações. A arte, quando “acomodamos” em alguma fórmula, está morta.
Como artista, me relaciono com outras áreas, como as artes visuais e a música; recentemente o teatro, porque meu orientador do doutorado em Educação é do teatro. Antes disso, fiz um mestrado em artes visuais; e, na música, tenho uma parceria com Pedro Rosa Paiva desde 2006 – o que gera colaborações cênicas bem bacanas; em 2010 fomos ao SESC Pompéia; o SESC TV gravou o espetáculo e transformou num especial, no programa nº 12 da Série “Dança Contemporânea”.

Quem são suas principais influências e parcerias profissionais?
Tem todos os meus professores da faculdade: Carla Reinecke, Eva Schul, Hugo Delavalle, Elaine Markondes, Claudia Gitelman (EUA), entre tantos outros; depois, a Dona Toshie Kobayashi, Mário Nascimento (posso dizer que os dois me acompanharam muito em minhas peregrinações); aí veio a parceria com o Mimese, em Cruz Alta: Rubiane Zancan, Katia Kalinka, Janaína Jorge, entre outros, foram fundamentais na construção de movimentos e pensamentos; hoje, desde 2008, o Coletivo de Artistas da Sala 209, em Porto Alegre, do qual faço parte. Em especial, Daggi Dornelles, Eduardo Severino, Luciano Tavares, Déia Spolaor, Cibele Sastre e Tatiana Rosa. São pessoas que trocamos aulas, coreografias, dúvidas em relação à circulação de trabalhos, inserção no campo da dança, enfim. Aí tem os artistas maravilhosos que me inspiram. Aqui em Porto Alegre temos recebido vários deles (graças a Deus!); de 2006 para cá pude acompanhar de perto, assistir e fazer algumas aulas, na ocasião da vinda deles para cá: Merce Cunningham, Pina Bausch, Lutz Forster, Mark Sieckarec (do qual dancei “Olhos fechados no sol”, com a Porto Alegre Cia de dança).

Como você enxerga a vida do profissional de dança no Brasil?
Vejo que o mercado está se modificando e se transformando. Há várias maneiras de ser profissional da dança. Acho difícil, mas, tenho visto que as questões de trabalho não dependem muito da profissão que você escolheu, e sim, da maneira com que você conduz sua vida, sua ética no campo de trabalho; a criatividade e o bom humor nas circunstâncias difíceis. A capacidade de invenção… Isso são características que permeiam o grupo humano como um todo, quando há “sucesso” na sua vida profissional. Na dança funciona da mesma maneira.
Temos sempre que considerar o que se entende por um “profissional da dança”. É a pessoa que dança? Ou seria a pessoa que, de alguma maneira sobrevive de sua produção e trabalho com a dança – seja produção prática, teórica; seja um técnico. Problematizo e deixo em aberto para pensarmos juntos no assunto.

Qual seu ponto de vista em relação à existência de Festivais de Dança? Você costuma participar de eventos como estes?
Os festivais tiveram e têm uma importância de agregar pessoas; de ser um meio de circulação e difusão de trabalho. Vejo que os mais importantes festivais de dança do País estão se reinventando; Joinville é o modelo disso, sempre em movimento – e em busca de agregar segmentos distintos da dança em uma mesma época e local. Todos ganham com isso. A dança ganha. Acho que temos de ser mais abertos – nós, o “povo da dança”. Somos meio “rançosos”, ainda. Vejo um comportamento com traços “modernistas”, com pretensões inovadoras. E vejo muita prepotência e alguns “narizinhos empinados”; vejo a nossa classe, da dança, polarizada, meio intransigente com a diferença. É isso que impede uma evolução social de maior abrangência para o campo da dança. (isso me cansa…)
Sim, eu costumo participar de festivais, de várias maneiras: de 1997 a 2001 levei meus trabalhos a concorrer (solos de minha criação e interpretação). Ganhei vários prêmios, entre eles melhor bailarina dos festivais de Bento Gonçalves, Encontro Latino Americano de Dança e Joinville. Depois de 2001, quando ganhei o prêmio em Joinville, passei a trabalhar em festivais como professora, jurada e bailarina convidada.

Que momento de sua carreira você destacaria?
Quando compus “Um corpo bem de perto”, em 2006. Foi um divisor de águas, no bom sentido. Aprendi muita coisa, tendo que levar um espetáculo sozinha. Inicialmente comecei o trabalho com o Airton Tomazzoni de “olheiro” – espécie de provocador -, dentro do projeto Casa Bild (Prêmio Klauss Vianna 2006, de Jussara Miranda). Depois disso, o espetáculo ganhou vida própria; dancei em vários Estados e eventos de dança.
Foi neste momento de minha vida que percebi/senti a questão da “fragilidade” e efemeridade na dança (o que já sabia teoricamente); na ocasião, passei a compreender isso “na carne”. Havia um poema lindo, que iniciava a cena e trazia “o ser (fr)ágil e potente” para a ação.

Se pudesse gritar ao mundo da dança uma frase, o que gritaria?
1º: Não se prendam a cânones estéticos arbitrários! Dancem o que tiverem vontade de dançar. A dança é de cada um!
2º: Tomem conhecimento do funcionamento do campo da arte/dança! Para saber que nossas decisões sempre são políticas e comportam consequências.

Qual a importância de um currículo acadêmico na formação de um profissional de dança?
A importância que você der a ele; depende de cada um. Para mim foi e é essencial. E é algo muito natural. Quando tinha 16 anos já havia resolvido que iria prestar o vestibular para Dança (já dançava desde os 11 anos). Aos 17 já estava em Curitiba, na faculdade. Então, cresci com isso, fazendo e estudando dança de manhã à noite. Quando me formei passei a trabalhar dança, de manhã à noite; depois, em 2000, voltei a estudar… Mas, é a dança que permeia minha vida, sempre, de manhã à noite – e creio, assim será, até o fim.

Você já recebeu grandes premiações, como o 1º lugar por dois anos (2000 e 2001) nos “Solos Contemporâneos Femininos” no Festival de Dança de Joinville, “Melhor Bailarina” no mesmo festival, Prêmio de Incentivo aos Novos Criadores do CONDANÇA, Prêmio Funarte Klauss Vianna para a dança, entre outros. Até que ponto você considera importante as “premiações do mundo da dança”?
Elas fazem parte, além de um reconhecimento de seu trabalho, de um jogo de mercado. Considero que as premiações são uma consequência de muito esforço e, também, em alguns casos, de boas relações políticas. Os prêmios sempre funcionaram para alimentar um mercado de arte. Para mim, nunca foram motivo de “enaltecer vaidades”, e sim, oportunidades que me fizeram ter mais relações de trabalho e conhecimento – e dúvidas, que me levaram a novas compreensões.
No espetáculo “Glórias do Corpo”, da Eduardo Severino Cia. de Dança, há observações sobre o fazer mecânico e o fazer poético. O fazer poético parece ser uma constante busca sua. Você percebe essa busca nos bailarinos e coreógrafos brasileiros atuais? Fiz um mestrado em poéticas visuais (fazendo e buscando compreender a performance, dentro das artes visuais e seus entrecruzamentos com a dança); antes disso, sempre estudei composição coreográfica e a poética faz parte de minhas investidas, sim, como artista. O que busco em teoria é para observar melhor o que se desenvolve no meu dia a dia como artista. Vejo muita gente buscando.
Creio que o mais difícil seja, mesmo, equilibrar os desejos, a ação, o saber teórico. Mas, acima de tudo, a RAZÃO de se querer isso, sabe? Para mim é algo muito natural, quase que uma sede de fazer/saber. E essas coisas não estão separadas. Quem conhece meu trabalho e convive comigo sabe do que estou falando. A teoria está em cada “sulco” feito em minha carne – e digo isso sem prepotência. Digo isso, pois entendo como algo eminentemente construído, há quase 25 anos (esse fazer/pensar).

Você costuma levar sua dança para intervenções urbanas. Conte mais sobre isso.
Minha primeira investida fora do palco foi em 2005, em experiências feitas no mestrado; houve um trabalho que chamei “Amanhã ou depois, deixe sua pele ver o pôr-do-sol”. Filmei no lago da UNICRUZ, em Cruz Alta (meus alunos me ajudaram). Por mais singelo que possa parecer, o ato me fez redimensionar muitos entendimentos de corpo-dança-espaço e “lugares possíveis”.
Depois disso participei com Dagmar Dornelles de algumas performances de rua. A Daggi é uma artista que desenvolve um trabalho lindo e sensível, provocando o olhar das pessoas para a dimensão humana nas cidades.
Agora, terminando de responder ao início da questão anterior, em 2010 fui para a rua com a “Eduardo Severino Cia de Dança”, com o trabalho “Glórias do Corpo”, que foi muito bacana. Íamos a lugares destinados à prática de exercícios na cidade, em Porto Alegre. Isso provocou muitos pensamentos, observações e ações. Ver as pessoas buscando o movimento… Ver corpos sem refinamento estético – daquilo que normalmente podemos considerar por isso, na(s) dança(s), felizes por estarem ali, existindo e entrando em contato com a natureza e o movimento. Realmente, considero essencial olhar “para fora”; ver que o mundo está muito além “dos nossos jardins e palcos bem construídos”. A vida é movimento, sempre. E o pensamento corre atrás.

Qual seu maior sonho profissional? E quais os planos para 2011?
Bah, que difícil… Não sei, acho que é simplesmente continuar. Parece pouco, mas, é isso. Espero ter saúde para dançar até ficar bem velha.
Para 2011, um novo solo. Já estou trabalhando com Eva Schul na direção, um novo projeto de coreografia. E tem também um solo novo que trabalharei em colaboração com o Mário (Nascimento). Gosto da ideia de ter duas direções diferentes, para dois trabalhos novos. Mas, além disso, gostaria, mesmo, de conceber algo novo, a partir de uma série de coisas que têm acontecido com os movimentos de meu corpo, ultimamente…
Também estarei começando meu trabalho como professora no curso de Dança da UFRGS, um curso novo, que se iniciou em 2009 – há dois anos, portanto. Quando entrei na UNICRUZ, que foi o local do primeiro curso de Dança do RS, também fazia dois anos do início das atividades no curso; vejo que ajudei a construir uma ideia por lá. Agora é hora de outra tarefa; encontrarei novas pessoas para trabalhar DANÇA – e isso é o que mais me fascina.

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